sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Resenhando "Morte dos Reis"

CORNWELL, Bernard. Morte dos Reis. Rio de Janeiro, RJ: Record, 2015. (As Crônicas Saxônicas; v.6). 375 p. ISBN 9788501098306.


"Morte dos Reis" é o sexto volume das Crônicas Saxônicas, série épica que conta até agora com 8 livros lançados no Brasil (o 9º deve chegar este ano), escrita pelo britânico Bernard Cornwell. A série se passa nos séculos IX e X durante as invasões dinamarquesas na Grã-Bretanha, e narra a unificação da Inglaterra desde os primórdios sonhos de Alfredo, o rei de Wessex, um dos reinos que viriam a constituir a Inglaterra, localizado ao sul.
Cornwell, assim como em suas outras obras, insere personagens e fatos fictícios em meio a acontecimentos históricos. Nesta série, o herói é Uhtred de Bebbanburg (personagem nem tão fictício assim, pois trata-se de um antepassado do autor), um saxão nascido na Nortúmbria (reino mais ao norte) que durante a infância é capturado por dinamarqueses e criado no meio destes, aprendendo com eles a lutar, cultuar seus Deuses e os amar. Uhtred, depois de adulto, se vê dividido entre os dinamarqueses e os saxões, mas sua honra sempre o leva à Alfredo de Wessex, por quem nutre uma profunda admiração, mesmo o desgostando. O protagonista luta por Wessex, mas sempre mantendo o sonho de um dia retomar seu lar na Nortúmbria, o inexpugnável castelo Bebbanburg, usurpado por seu tio, 
Em "Morte dos Reis", Wessex e grande parte da Mércia, ainda resistem aos dinamarqueses, e passa-se por um período sem que estes façam qualquer tentativa de invasão a esses reinos, o que faz muitos acreditarem que estão em uma época de paz. Uhtred sabe que quando há aparente paz, significa que alguém está planejando uma guerra. Obviamente, ele nunca vive uma vida tranquila, sendo neste volume da saga, mais vítima de armações e tramas do que nunca.
Alfredo, depois de um longo período doente, morre, mas não sem antes conseguir que Uhtred faça um juramento à seu filho, Eduardo, sucessor ao trono. O rei sabe que mesmo com a desaprovação dos padres, é Uhtred o grande responsável por manter Wessex livre dos dinamarqueses e conta com ele ao lado de seu filho. Logo após a morte de Alfredo, seu sobrinho Aethelwold, junta-se aos dinamarqueses contra os saxões a fim de tomar o trono de seu primo Eduardo. Após muitas deliberações, os saxões marcham para a batalha, que resulta em uma das narrativas mais épicas da série. 

O Livro 
Normalmente os livros dessa série terminam em batalhas épicas, onde o autor desenvolve as narrativas com tamanha maestria e conhecimentos históricos e bélicos (desmistificando possíveis romantizações de guerra previamente conhecidas), que o leitor sente-se dentro da parede de escudos empunhando uma espada. É possível sentir o júbilo da batalha junto com o protagonista, tamanha paixão e precisão da escrita impecável. Mas neste volume em especial, os momentos finais da batalha descrita, onde, como sempre, o inimigo é mais numeroso, provocaram arrepios nesta que vos escreve. Uhtred, agora com 45 anos, começando a notar que está velho, continua com sua impertinência adorável para com seus superiores. Ele é um guerreiro formidável, excelente estrategista em batalha e um protagonista divertido. Transparente, não traz mistérios, entende-se completamente suas amarguras e sentimentos. Junto com Finan e Osferth, seus fiéis companheiros, Uhtred vive um dos momentos mais emocionantes em batalhas da série, com a morte iminente os assombrando, porém mantendo a fúria de guerreiros que são.
Já Aethelflaed, mostra-se neste volume uma personagem em ascensão. Pouco lembrada pela história, a filha mais velha de Alfredo muito fez pela Inglaterra. Amada pelos mércios, ela comandou exércitos contra os dinamarqueses e lutou pelo sonho de seu pai junto à seu irmão Eduardo. Somando-se os fatos reais com seus romances nada convencionais, estes acrescentados pelo autor, ela representa a força e a coragem de uma mulher em uma época onde a igreja opressora imperava. Acredito que as leitoras da série, ao chegar ao final do sexto livro, depositam muita esperança nesta personagem, assim como essa que vos escreve, que gostou do gênio de Aethelflaed desde suas aparições na infância.
Vida longa à Bernard Cornwell, que além de entreter, nos brinda com aulas de história. Em seu sexto volume, as Crônicas Saxônicas continuam de tirar o fôlego, sempre com reviravoltas, traições, e claro, sangue. Destaque para as notas históricas ao final de cada livro, onde o autor explica fatos realmente ocorridos e as mudanças que achou pertinente inferir para o bem da narrativa.
Após mais um livro incrível, a leitura da série continua. E as batalhas também, pois os descendentes de Alfredo precisam terminar o que ele começou e Uhtred precisa retomar o que é seu. O destino é inexorável.

[Livro Resenhado para o Desafio Literário Skoob 2016. Junho: Livro com 3 palavras no título]

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Morte

Algumas perguntas não devem ser feitas. 
Elas não estão na caixinha de perguntas.
Se uma pessoa desconhece o conteúdo da caixinha de perguntas, 
Ela faz perguntas desconfortáveis à outras pessoas de mente aguçada
Essas pessoas por sua vez não sabem o que responder.
Pois temem a morte
O conceito de morte deve ser revisto pelo sociedade
Morte é um renascimento
Uma passagem para outra vida
Uma outra vida possivelmente melhor
As pessoas creem que a vida é a melhor coisa que há
Porém estamos neste plano para evoluir e viver os karmas
Que mal há em conversar sobre a morte, única certeza da vida?
Em perguntar sobre a morte?
Somente loucos pensam sobre a morte? Sobre formas de morrer?
Pois as mesmas pessoas que desconhecem o conteúdo da caixinha de assuntos permitidos, ou não ligam para as regras, são as chamadas loucas.
As que imaginam sua morte
A morte das pessoas queridas
A morte dos inimigos
A morte dos desconhecidos.
A morte como uma agonia seguida de um consolo
De um doce sonho
De um despertar para a eternidade
Perguntas sobre a morte deveriam ser legalizadas
Pois mentes aguçadas pensam sobre a morte
Mas somente os subversivos têm coragem de verbalizar.




domingo, 10 de janeiro de 2016

Resenhando "Mestre Gil de Ham"

TOLKIEN, J.R.R. Mestre Gil de Ham; Ilustrado por Alan Lee. São Paulo, SP: Editora WMF Martins Fontes, 2012. 102 p. ISBN 9788578275778

Publicado pela primeira vez em 1949, "Mestre Gil de Ham" foi inicialmente uma história escrita por Tolkien para entreter seus filhos, bem como "O Hobbit" e "Roverandom". Diferente da história dO Hobbit que teve sua versão final mais detalhada, "Mestre Gil de Ham" teve poucas modificações do seu manuscrito original (publicado também nesta edição brasileira após a versão final). Trata-se de uma história genuinamente infantil, com pitadas de humor e muita aventura.
O livro
O enredo inicia-se apresentando Aegidius Ahenobarbus Julius Agricola de Hammo, um fazendeiro residente na aldeia de Ham, Grã-bretanha, cujo nome vulgar e mais chamado por todos é Mestre Gil de Ham. A história desenvolve-se em um passado muito antigo, onde Mestre Gil vive pacatamente com sua mulher, seu cachorro Garm e sua égua cinzenta, até um dia em que um gigante aparece em suas terras, matando sua vaca preferida, alguns carneiros, e destruindo tudo ao redor. Na verdade, o gigante estava apenas perdido tentando encontrar o caminho de casa, mas Mestre Gil, preocupado com sua propriedade toma-se de coragem e consegue afugentar o enorme gigante, dando início à sua reputação que chega aos ouvidos do rei, que manda uma espada (Caudimordax) de presente ao Mestre Gil. Caudimordax, ou Morde-Cauda (na língua vulgar) é uma espada que pertenceu a um famoso matador de dragões em um passado onde haviam muitos dragões no reino, e que torna-se útil novamente quando Chrysophylax, um rico e terrível dragão aparece próximo ao reino, causando morte e destruição. Mestre Gil é enviado com Caudimordax, uma armadura precária, sua égua cinzenta e seu cachorro junto aos cavaleiros do rei a fim de derrotar Chrysophylax.
Um dos maiores destaques, é o cachorro Garm, pois além de ser o personagem chave para os acontecimentos do livro, ele fala (sim, fala) e os momentos em que ele fala são bastante engraçados. O dragão Chrysophylax, apesar de ser o "vilão" da história, também detém falas engraçadas, tornando a narrativa leve e descontraída, indicada para crianças e adultos de todas as idades.
Sabe quando lemos um livro e pensamos: "Vou guardar este livro para meus filhos"? Pois bem, este deve ser um dos primeiros livros que uma criança a quem os pais pretendem criar na "doutrina Tolkieniana" deve ler. A leitura, com sua linguagem simplificada é ótima para introduzir o leitor no universo de Tolkien, além de fluir de forma agradável.

[Livro resenhado para o Desafio Literário Skoob 2016. Janeiro: Fantasia]

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Sonhos e Fantasias

Quando fiz 11 anos, minha carta de Hogwarts não chegou
Nunca encontrei uma passagem para Nárnia através de meu guarda roupa
Minha casa nunca foi levada para Oz em meio a um ciclone
Nunca encontrei um ovo de dragão (pois nunca fui à Alagaësia)
Nem uma toca de Hobbit
Muito menos Avalon
Já me conformei que Lestat nunca me concederá a vida eterna
E não mais espero poder voar sobre Fantasia em um Dragão da Sorte
Nem presenciar batalhas épicas em Westeros ou Essos
E não creio mais que um dia irei viajar ao centro da Terra
Ah como eu ansiava por conhecer a Terra Média
E Valinor
Mas ainda guardo esperanças de que quando eu partir deste plano
Mandos me receba em seus palácios
O destino de minha alma só ele, Manwe e Ilúvatar conhecem
Pois apesar de ter desejado por toda a vida ser uma elfa
Sou apenas uma humana...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Em algum lugar, meu Dragão espera

Dragões são míticos e místicos. Eles representam os 4 elementos em um só ser e são a personificação do poder e da sabedoria.
Um Dragão pode ser mau, apavorando vilas, destruindo cidades e populações, até que um valente guerreiro o derrote em sangrenta batalha. Há uma metáfora nisso: Cada um de nós possui "dragões maus" dentro de si. Dragões que precisam ser mortos em batalha espiritual. Travam-se batalhas na consciência o tempo todo até que os dragões maus sejam sobrepujados.
Mas também existem Dragões bons, como alguns presentes na literatura e em jogos. A estes seres, devemos nos unir, lutar conjuntamente por uma causa. E a metáfora ainda está presente: Dragões do bem aparecem em nossas vidas das mais diversas formas, como uma força superior que nos joga a perseguir nossos objetivos.
Dragões assim como elementais, existem para quem acredita na sua existência. Muito provavelmente, na Idade Média, as pessoas acreditavam piamente em sua existência, o que levava à sua materialização (de que outra forma ouviríamos falar tanto neles?). Com o passar dos anos, a mente humana sofreu modificações, tornando-se primordialmente racional (será mesmo?), acreditando assim somente em coisas pré visualizadas, suprimindo deste modo a imaginação e adotando uma fé seletiva no abstrato (muitos acreditam em Deus (es), mas acham a ideia de fadas existirem um absurdo, por exemplo). Deste modo, Dragões, Fadas, Gnomos, deixam que saltar aos olhos neste plano, preferindo habitar somente o inalcançável aos olhos humanos, povoando a mente de sonhadores.
Existe uma série de livros escrita por Christopher Paolini, chamada "Ciclo da Herança" que conta a história dos Cavaleiros de Dragões. Os Cavaleiros são pessoas (ou elfos) afortunadas, a quem seu Dragão os escolhe ainda no ovo. A ligação entre eles é tão poderosa que proporciona entre outras coisas, o poder da telepatia. Juntos, eles enfrentam o mau (como na metáfora onde nos juntamos aos "dragões bons" em busca de um objetivo). Pessoas sonhadoras que têm a capacidade de acreditar naquilo que não se materializa normalmente aos meros mortais, acreditam que a existência dos dragões está além das metáforas. Sonham, em um mundo melhor ou em outro plano, encontrar seu Dragão.


Fonte da Imagem: The Elder Scrolls V - Skyrim

domingo, 30 de agosto de 2015

Resenhando "A Queda de Artur"

TOLKIEN, J.R.R. A Queda de Artur; Organizado por Christopher Tolkien. São Paulo, SP: Editora WMF Martins Fontes, 2013. 286 p. ISBN 9788578277406

Editado por Christopher, filho do Mestre Tolkien, o livro "A Queda de Arthur" é composto de um poema aliterante inacabado sobre o Rei Artur escrito por J.R.R. Tolkien e muitas considerações escritas por Christopher Tolkien. Pode-se considerar que Christopher escreveu a maior parte do livro, visto que o poema em si ocupa por volta de 80 páginas (de 286) divididas entre o poema original em inglês e sua tradução em português, na edição brasileira.
Para a apreciação do poema ser satisfatória, há de se ter conhecimento prévio sobre a lenda do Rei Artur. Para apreciar-se o livro como um todo, há de se ser fã de Tolkien ou ao menos, curioso sobre seu legado. Christopher explana acerca do poema de seu pai, falando sobre os autores que o influenciaram, rascunhos encontrados com ideias que viriam a ser parte do poema, a relação do mesmo com outras obras do autor, e muito especula sobre o que o pai dele iria escrever, ou os motivos que o levaram a pensar de determinada maneira. As explicações de Christopher são válidas, principalmente as passagens onde transcreveu alguns versos rabiscados de seu pai encontrados em um caderno, que viriam a compor o poema se o mesmo tivesse sido terminado, porém, ele delongou-se demasiadamente, tornando a leitura muitas vezes maçante com repetições do poema desnecessárias e muitas explicações que são meras conjecturas que denotam uma busca incessante por desvendar o restante do poema e compreender a mente de Tolkien em sua totalidade.
Apesar dos pesares, muito se aprende sobre a lenda do Rei Artur e sobre a obra e vida de Tolkien, afinal, seu filho publica alguns fatos curiosos que percebe-se serem verdadeiros, e acaba-se concordando com Christopher em muitas de suas conjecturas sobre "A Queda de Artur". Mesmo não concordando totalmente com a forma com que esta obra especificamente foi conduzida, quem é fã de Tolkien deve sentir-se feliz com a sua publicação, bem como outras publicações póstumas do autor que Christopher, na condição de detentor do legado de seu pai, vem concebendo.
Sobre o poema em si, mesmo não estando habituado a esse tipo de literatura e preferir outras obras do autor (como é o caso dessa que vos escreve), o leitor pode satisfazer-se com a leitura, que trata-se de um poema bastante bonito e enriquecedor, pois traz a história de uma das maiores lendas (ou seria verdade?) mundialmente conhecidas. Avalon bem como Morgana, poderiam ser mais presentes, é verdade, mas há de se ter consciência de que como trata-se de uma história passada há muitas gerações, cada autor a conta da forma que mais lhe apetece, e nem tudo que poderia ter sido escrito no poema de Tolkien foi colocado em papel. Provavelmente ele ainda tinha ideias na cabeça que não devem constar nos rascunhos ou não foram encontradas, quiçá nem ele mesmo sabia o rumo que a obra tomaria. Infelizmente nunca se saberá pois ele abandonou seu poema, para, felizmente, concluir outras obras importantíssimas para a literatura mundial.


[Resenha participando do "Desafio Literário Skoob 2015". Agosto: Folclore e Mitologia]

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Infeliz Por Nada

Angústia
Que não se sabe porquê habita
Solidão
Mesmo com todos em volta
Trancado no fundo da alma
Sensação de algo fora do lugar
Medo do desconhecido
Sentimentos confusos
Tempo desperdiçado
A não entrega
Presenciar fatos como alguém de fora
Onde está o sentido?
O que fazer dali por diante?
Reprogramados para ser escravos?
Querer fazer algo grandioso
Sem saber por onde começar
Trilhar o caminho difícil
Para terminar em um desfiladeiro
Palavras desconexas
Despejadas no papel
Aleatoriamente
Sentimentos
Pensamentos
Pensar demais dói
Dói a alma.
Dói o ser.

domingo, 12 de julho de 2015

Resenhando "Sementes no Gelo"

VIANCO, André. Sementes no Gelo. Osasco, SP: Novo Século Editora, 2011. 190 p. ISBN 9788588916098

O roteiro de "Sementes no Gelo" desenvolve-se em Osasco, cenário onde já ocorreram outros romances de André Vianco, mestre do suspense fantástico contemporâneo nacional. Nesta narrativa curta, o autor explora uma questão há muito discutida entre pessoas espiritualizadas e cientistas: Embriões fecundados em laboratório e posteriormente congelados possuem alma? Assumindo que sim, Vianco cria um cenário onde essas almas, aprisionadas em um estado entre o mundo espiritual e o mundo em que vivemos, impossibilitadas de reencarnar e cumprirem suas missões, revoltam-se contra os vivos que elas julgam serem responsáveis por suas condições, causando pânico em alguns e comoção em outros.
O livro inicia-se quando um assassino e estuprador de crianças é morto em circunstâncias misteriosas em uma delegacia após ser preso. O policial responsável vê crianças entrando no local minutos antes, crianças capazes de atravessar grades. Neste ínterim, Tânio Esperança, detetive particular, recebe um chamado de ajuda de sua velha amiga Lizete que alega estar sendo visitada pelo fantasma de uma criança. Outros casos semelhantes passam a acontecer na cidade, e Tânio, ao desvendar a origem dos fantasmas passa a ser considerado seu inimigo principal e a correr risco de vida.
A leitura é realizada vorazmente, pois além do fato do livro ser curto, os acontecimentos vêm rapidamente, resolvendo-se as coisas sem a tradicional embromação, artifício utilizado por muitos autores. Destaca-se a menção à acontecimentos ocorridos em "Os Sete", livro do mesmo autor e a introdução de Padre Alberto Cantor na história, personagem também presente em "Os Sete", fatos que certamente deixaram os fãs da obra de Vianco levemente eufóricos por alguns segundos ao ler "Sementes no Gelo", mesmo sabendo que é comum o autor utilizar deste artifício de ligação entre seus livros.
Alguns fatos que ocorrem até o final do livro deixam o leitor surpreendido, como uma ligação mais profunda entre o personagem principal, Tânio e as almas atormentadas. Mesmo sendo uma leitura fácil, deve-se estar atento para alguns detalhes que ficam subentendidos, a fim de "ligar todas as pontas soltas" da história. Ao final da leitura, o maior efeito que a mesma causa é a reflexão acerca de reproduções in vitro. Até que ponto o ser humano pode utilizar da ciência para o bem da humanidade correndo o risco de desequilibrar a ordem natural das coisas? Ou será que temos esse direito justamente pelo fato de Deus ter concedido ao homem inteligência para tal e tudo é parte de um plano maior?

[Resenha participando do "Desafio Literário Skoob 2015". Julho: Inverno/Frio]

sábado, 20 de junho de 2015

Resenhando "O Morro dos Ventos Uivantes"

BRONTË, Emily. O Morro dos Ventos Uivantes. São Paulo, SP: Editora Landmark, 2007. 300 p. ISBN 9788588781344

Publicado em 1847 sob um pseudônimo masculino (Ellis Bell), "O morro dos ventos uivantes" foi o único romance escrito por Emily Brontë e é considerado um dos maiores clássicos da literatura inglesa.
A narrativa, em terceira pessoa, centra-se nos habitantes do Morro dos Ventos Uivantes, lugarejo afastado da agitação da cidade, em Gimmerton, na Inglaterra, que no início da história pela ordem cronológica, pertencia  aos Earnshaw. Certa vez, o patriarca da família chega em casa trazendo um menino de origem desconhecida, de idade próxima à de seus filhos, Hindley e Catherine, e denomina o menino como Heathcliff. Hindley não gosta de Heathcliff por sentir que seu pai é demasiado afeiçoado ao forasteiro, mas Catherine desenvolve um forte afeto pelo estranho menino, o qual é correspondido e perdura durante todas as suas vidas. Quando o Senhor e a Senhora Earnshaw morrem e Hindley assume o comando da casa, passa a maltratar Heathcliff e tratá-lo como um criado, o que desencadeia fortes ressentimentos no rapaz.
Catherine e Heathcliff crescem como um espelho de personalidade um do outro, e apesar de amá-lo e a recíproca ser verdadeira, Catherine resolve casar-se com Edgar Linton, filho do proprietário da Granja Thrushcross, pelo fato deste ser fino e possuir grande poder aquisitivo. Heathcliff deixa o Morro dos Ventos Uivantes e quando retorna anos depois, está rico e com a alma obscura, querendo vingança, o que o leva a casar-se com a irmã de Edgar Linton, Isabella.
A narrativa estende-se após a morte de Catherine por quase 20 anos, chegando as histórias dos filhos das personagens do início, com muitas reviravoltas.
Heathcliff passa de injustiçado à vilão ao decorrer do livro, fazendo-se odiar, principalmente pela forma com que lida com Hareton Earnshaw, filho de Hindley, personagem que como a grande maioria, não simpatiza-se no início, mas conforme seu crescimento, desperta a compreensão e a empatia do leitor. A maioria das personagens é detestável, uns por serem maus em seu íntimo, outros por serem demasiado mimados (entre estes, destaca-se Linton Heathcliff, filho de Heathcliff e Isabella), e mesmo sem ter apego por nenhum deles até quase o final da leitura, o apego pelo livro em si aumenta a cada página. A história é muito bem desenvolvida e tem todas suas pontas amarradas com genialidade.
Uma história de amor amaldiçoado como nenhuma outra, criticada fortemente na época de seu lançamento, e genuinamente, uma obra-prima. Após seu término, o livro deixa o leitor órfão e arrependido de ter lido rapidamente, impossibilitando que o mesmo consiga afastar-se dos cenários criados em sua mente por vários dias. Talvez, se Emily Brontë não tivesse partido tão cedo deste plano, teria brindado a literatura com mais deleites como este. Talvez, nenhum livro que ela por ventura tivesse escrito chegaria aos pés de "O Morro dos Ventos Uivantes", não há como saber. O que importa, é que o legado que ela deixou na forma de um livro apenas já é o suficiente, e somente o lendo é que entende-se sua importância para a literatura mundial, e o porquê de ser uma leitura cultuada até os dias de hoje, com potencial para perdurar enquanto o mundo perdure.

[Resenha participando do "Desafio Literário Skoob 2015". Junho: Casais]

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Resenhando "Olhai os Lírios do Campo"

VERISSIMO, Erico. Olhai os Lírios do Campo. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2005. 286 p. ISBN 9788535906097


"Olhai os Lírios do Campo", publicado em 1938, foi o romance responsável por alavancar a carreira de Erico Verissimo como escritor. Traduzido em diversas línguas, suas tiragens esgotaram-se rapidamente e é até hoje um dos livros mais vendidos do autor.
Qualquer obra com o nome de Verissimo estampado na capa é uma promessa de leitura envolvente e instigadora ao pensamento, e esta vem até o leitor com esse exato intuito. 
A narrativa, dividida em duas partes, centra-se na vida de Eugênio Fontes, contando sobre sua infância pobre, sua ascensão depois de formado médico em meio à alta sociedade e sua evolução como ser humano. Durante a primeira parte, o autor apresenta Eugênio já casado (e frustrado) com Eunice Cintra, mulher rica com quem casou-se por interesse, e em meio ao desespero por saber que Olívia, mulher que ama verdadeiramente está a beira da morte. A vida de Eugênio, desde sua infância é narrada em suas memórias, na viagem de carro de sua propriedade rural até o hospital onde Olívia vive seus últimos momentos. O leitor depara-se com a infância pobre do protagonista, e vê o seu orgulho levá-lo a sonhar alto, estudar medicina para ser uma pessoa importante com alto poder aquisitivo. Na faculdade, ele conhece Olívia, personagem que confirma a força das personagens femininas de Veríssimo. Olívia é responsável pelos poucos momentos de felicidades de Eugênio, no início de suas carreiras como médicos, o apoiando em seus problemas e mantendo um relacionamento amoroso não definido, até Eugênio conhecer Eunice e deixar Olívia para trás, por pura ambição e egoísmo.
Na segunda parte do livro, Eugênio já demonstra como um ser humano, seja ele fictício ou não, pode amadurecer ao longo de sua vida, e grandes acontecimentos o fazem olhar para o mundo de uma maneira diferente, mas não só os grandes acontecimentos detém esse poder, como também os pequenos detalhes, como cartas lidas postumamente. Eugênio descobre aos poucos sua missão e as dificuldades que enfrentará para ser a pessoa que ele é no seu íntimo.
É fácil aos sonhadores angustiados identificar-se com Eugênio ao final da narrativa, um personagem extremamente humano e cheio de sentimentos. Muitas histórias individuas de outras personagens são narradas no decorrer da obra, o que leva o leitor a refletir ainda mais acerca de sua própria vida enquanto lê as tragédias ficcionais que podem ocorrer na realidade com qualquer pessoa no mundo.
Além de comover e até fazer rir, o autor emite diversas críticas, principalmente utilizando-se do núcleo constituído pelo círculo social dos Cintra, onde Eugênio sente-se perdido em meio à futilidade, preconceito e ideais distorcidos.
Um livro acima de tudo visceral com poder de mudar a vida de seus leitores, ou pelo menos fazê-los ter vontade de parar para olhar os lírios do campo e os pássaros do céu...

[Resenha participando do "Desafio Literário Skoob 2015". Maio: Língua Mãe]